Devoção vermelha, desdém azul: o que disseram as arquibancadas nas noites de Libertadores em Porto Alegre

O torcedor gremista tinha coisa melhor para fazer do que ir para o estádio. Para o colorado, nada é melhor do que ir ao Beira-Rio

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“No hay nada menos vacío que un estadio vacío”, disse o Galeano. E qualquer um que tenha entrado em um estádio de futebol na vida há de concordar. As arquibancadas gritam. O concreto guarda parte daquilo que se passou entre as linhas. A cancha, sozinha, fala.

Pois as arquibancadas da Arena do Grêmio e do Beira-Rio falaram nessa semana. Cada uma a sua maneira. Utilizadas como palco para as estreias em Porto Alegre de tricolores e colorados, as casas dos dois maiores clubes do sul do Brasil deixaram bem claro o seu recado.

Na terça-feira, 32 mil gremistas foram à Arena. Em um estádio desproporcionalmente grande (em uma relação simples de público médio x lugares disponíveis), a sensação passada era de vazio. Um espectador menos assíduo do esporte futebol precisaria de cerca de 1,324 segundo para constatar que as cadeiras do estádio da zona norte são azuis. Eram inúmeras, centenas, dezenas de milhares delas vazias nas imagens que a TV mostrava.

O mesmo espectador, entretanto, poderia assistir aos 96 minutos de Inter x Alianza Lima sem ter como precisar qual é a cor dos assentos da casa colorada. Seriam as cadeiras amarelas? Pretas? Brancas? Seriam arquibancadas desprovidas de cadeiras? Onde começa a área livre de assentos, onde se acaba?

Impossível dizer.

Um mar de colorados inundou o Beira-Rio. Todos os espaços foram tomados. Todos os setores estavam abarrotados de gente. Eram mais de 42 mil vozes empurrando o Inter rumo à segunda vitória em dois jogos na Libertadores de 2019.

Desdém x Devoção

Ver os espaços vazios de um lado e tomados de povo do outro ajuda a entender como as duas torcidas enxergam a competição continental nesse momento.

Para os gremistas esse era apenas mais um jogo, contra apenas mais um adversário no invariável caminho da Taça. Cada cadeira vazia representava um tricolor que preferiu guardar o seu rico dinheirinho para fases mais avançadas da competição. Cada fileira deserta representava o desdém do torcedor e da torcida para a primeira fase do campeonato sulamericano. O gremista tinha coisas mais importante para fazer do que ir ao seu estádio.

O colorado, não.

A coisa mais importante da vida do torcedor colorado é a Libertadores da América. Ocupar cada centímetro do nosso Gigantesco Estádio faz parte do DNA de quem veste vermelho. Se é primeira fase, se é contra adversário menos expressivo, se em seguida teremos clássico… dane-se.

Se está faltando espaço, tirem as cadeiras. Se eles não vão ocupar a arquibancada visitante, passem ela para nós!

O Inter precisou inventar espaços novos para atender o seu povo nessa quarta-feira porque o seu torcedor trata esse torneio como se dele dependesse a sua própria existência.

Vou para o Beira-Rio porque é assim que me sinto vivo.

Quero conquistar esse continente porque essa é a única maneira que eu tenho de seguir respirando.

Os estádios, eles têm vida.

As arquibancadas, elas falam. E as do Beira-Rio berraram com devoção que não encontra rival nessas terras.

Não há nada mais lindo do que o Povo do Inter.

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